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Opinião: A profissão que esconde a sua cara

sábado, 11 de outubro de 2008 - 16:36

por Rafael Togo Kumoto

Enfim o momento chegou, e estou aqui explicitando minhas opiniões pela primeira vez. Tal estréia tem um bom motivo pra acontecer, que foi muito debatido há 3 horas, na terceira sessão do Café com Design (que, para quem não sabe, é um evento periódico informal voltado para a discussão do design, e que recomendo a todos os interessados).

Muito antes disso, em um almoço com velhos amigos, me deparei com uma questão bem presente em todas as minhas conversas com cursandos de outras graduações: O aspecto visual do estudante de design. Assunto bem inútil, mas que me ajuda muito a compreender a imagem que passamos ao “ser exterior”, unido a nós apenas pelo imenso bloco de concreto que chamamos de universidade. Lembrei-me de repente que um desses amigos, em seus tempos de photoshop, havia decidido que iria prestar seu vestibular para tecnologia em Artes Gráficas. Em seus momentos de puro ócio, aprendeu a mudar a cor do seu cabelo. Semanas depois, e estava fazendo recortes e fotomontagens de bandas que na época costumava ouvir (e que, assim como o photoshop, foram abandonadas pelo rapaz). Persistiu nessa decisão por certo tempo, mas acredito que até hoje não saiba realmente o que é o design. Quando conseguiu algumas pistas, desistiu rapidamente, e hoje é mais um engenheiro que não faz idéia do que fazemos. E francamente, seu perfil resultaria em um designer frustrado, e no mínimo desastroso.

Nesse mesmo dia, encontrei outro amigo (esse estudante de outra área) a quem havia prometido alguns projetos de identidade visual. Como já ouvi dizer em situações diversas do cotidiano de amigos, esse se mostrou impressionado ao saber que um designer tem a prática da utilização do AutoCAD. Em ambos os casos, porém, houve comentários idênticos: O estudante de design é aquele garoto estranho, de roupas esquisitas e pasta ao lado do corpo, correndo e gritando pelos corredores de engenheiros sóbrios. Surgiu-me à cabeça: O que será que impede o design de adentrar na mentalidade dos leigos, inclusive universitários, que convivem ao nosso lado diariamente? Não entrando em explicações onipresentes, tais como a recente popularização do design no Brasil, ou a desvalorização do profissional no mercado, tenho certeza de que há outros fatores que contribuem para essa realidade. E por acaso tal assunto entrou em discussão essa noite, e é sobre isso que vim até aqui me pronunciar (após linhas e linhas de enrolação).

Primeiramente afirmo sem sombra de dúvida: O design cefetiano se esconde do resto do mundo. Como se tivesse vergonha de sua condição, inclusive no próprio campo do design. Seja no movimento estudantil (antes da fundação do CADUT, mais elogiada lá fora do que aqui dentro, diga-se de passagem), na organização de eventos de design, na divulgação dos grandes feitos dos alunos (que existem, podem acreditar!), ou até mesmo na divulgação entre turmas. E se considerarmos a divulgação do design como um todo na universidade, a situação piora exponencialmente. A início de conversa, sequer o próprio departamento tem cara de núcleo de ensino de design. Produz impressos ridículos e sem nenhuma identidade visual. Existe uma logomarca, mas é substituída por um nome em Arial caixa alta. Existem muitos professores aptos a executar um trabalho bem feito, mas ainda perdura um espírito de velha guarda opressor e bloqueador de criatividade, que vê a arte como mero vandalismo...

Pergunto-me como é que vamos esperar algum crédito no campo do design se temos exemplos como esse. Sem custo algum, o departamento poderia utilizar seu conhecimento (teoricamente elevado e atualizado para o mercado de trabalho) para dar ao departamento um ar mais apresentável, e possivelmente fazê-lo para os outros departamentos. Ou no mínimo peças gráficas de apresentação do curso com um design trabalhado. Que impressão do design terá os futuros engenheiros parceiros de projetos em projetos de produto, ou contratadores de serviços de design? Qual a bagagem teórica que teremos para convencer a sociedade se não a explicitamos no dia-a-dia? É difícil lutar pela qualidade do aprendizado se a qualidade de ensino estiver prejudicada. Isso é óbvio e perturbante.

É claro que o problema não se encontra somente na atitude dos educadores, mas também nas atitudes dos educados. Uma boa imagem da profissão requer um bom profissionalismo perante o mercado de trabalho. Acredito que o estudante de design pense que trabalhar com seres humanos não requer boas relações humanas. Certas vezes, tamanho é o ego do designer que sequer nutre relações de amizade em sua sala de aula. Ou nutre até o momento em que pensa que se tornou dono da verdade. E nesse momento decide se tornar mais inteligente que o mundo.

Eu particularmente nutriria um ódio mortal pela classe dos designers se em minha primeira experiência encontrasse um garoto que não só se veste de forma engraçada, mas como também se mostra como um pseudo gênio com ares de artista e filósofo. Adicione também certo desprezo por todas as outras classes trabalhistas e pronto, temos aí cerca de 30% dos estudantes de design que conheci! Deixo bem claro que não tenho problemas com as pessoas de vestimentas estranhas, pois aos moldes sociais padrão sou um deles. Também gosto de artes e filosofia, e talvez por isso tenha um grande medo de me tornar o monstro que abomino. Uma coisa aprendi com diversos grandes mestres da verdadeira educação: Os estudantes se formam e parecem sair de uma forma (de fôrma), moldados a um mesmo comportamento, mesmos vícios e mesmos erros. Os veteranos são todos iguais porque perdem o brilho, seja lá de onde venha esse brilho (acredito que da humildade). Se isso for realmente verdade, tenho muito medo do futuro que me aguarda. E pelos mesmos motivos, gostaria que o CADUT e o Algures tivessem apenas mãos de estudantes longe de se formar.

Atitudes perante o leigo certamente contribuiriam muito para a valorização da nossa espécie, e dificilmente isso tomaria algum esforço sobre-humano por parte do profissional. Mostrar e explicar ao cliente e ao colega que design é muito mais do que os meros 15 minutos de desenho que ocorrem durante um projeto certamente iriam valorizar muito o trabalho do profissional. Temos o hábito de desmerecer nossas atividades. Eu mesmo tive um receio tremendo de cobrar um valor decente para o meu primeiro freelance. Mas talvez isso tenha me motivado a ensinar e esclarecer o cliente, e dessa forma o preço lhe pareceu muito adequado. E é gratificante ver que seu trabalho é admitido e reconhecido por pessoas leigas, por mais que em certas ocasiões a ignorância alheia seja grande demais para qualquer argumento.

Se um dia queremos ver nosso trabalho valorizado da devida forma, devíamos explicitar esse valor. Educar o cliente e a sociedade aos poucos, e dessa forma inserir o design gradualmente no cotidiano. Revolucionar silenciosamente é o único meio de salvação. Assim como todos os problemas de ignorância, a educação é o melhor caminho. A intervenção urbana também é sempre uma alternativa divertida; lembro-me bem que me simpatizava com stickers muito antes de saber o que era o desenho industrial. E talvez isso tenha me motivado a procurar saber mais. Até que façamos a nossa parte, não podemos crucificar os ignorantes. Seria como um político reclamar dos famintos.


Rafael é do quarto período de Bacherelado em Design, membro fundador do CADUT e participou da organização do 2° e 3° Algures

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